Da cisão do conhecimento ao protagonismo da completude cientifica.
A produção de conhecimento aos moldes eurocêntrico, tal como apreendemos e fomos induzidos pela lógica colonial, por meio de sistemas sociais e institucionais como a escola, algumas comunidades, Universidade, hospitais, serviços militares etc; inicia-se com a “Revolução Cientifica” aproximadamente a partir do século XVII, e teve como uma das angustias impulsionadoras, a vontade de compreender os fenômenos do mundo em sua totalidade.
Isso se deve ao fato do interesse humano
localizado naquele tempo/espaço determinado, sentir a necessidade histórica de
ir além dos preditos rígidos e dogmáticos dos cristianismos, sobretudo católico
e protestante, e suas visões definitivas, inconteste e divinal dos fenômenos da
vida, agenciadas pelos monarcas e pelo alto clero e seus propósitos.
Entretanto, o afastamento processual dos
fundamentos da provisão divina em direção as novas formas de compreensão,
proporia modelos e a criação de métodos para amparar essa forma de produzir
conhecimento, no qual a ideia de uma Razão, recém inventada (Wagner, 2006),
deveria se descolar da religião e se orientar pela interpretação “real” e
objetiva dos fenômenos, com cientificidade e divididos entre Naturais e
Sociais. E essa divisão consolida a ideia de disciplinar os conhecimentos e
subdividi-las em categorias próprias, para dessa forma aprofundar o
conhecimento racional, utilizando métodos próprios e “adequados” para validar o
agora definido: Conhecimento Científico.
Dessa forma, para consolidar o novo imaginário do Pensador/Cientista Moderno ocidental, elabora-se por padrões rígidos de aprofundamentos em matérias especificas, e a profissão de cientista (criado por William Whewell, que cunhou o termo em 1833), deve ser exercida como especialista e erudito apenas em seu ramos de estudo categórico.
Essa
construção conceitual propiciou muitas vantagens ao mundo do conhecimento
ocidental frente a outros, e colaborou para o triunfo do iluminismo a partir do
final do século XVIII até os dias de hoje. Porém a separação profunda do modelo
de conhecimento construído, não conseguiria dar respostas a complexidade social
do mundo a partir da segunda metade do século XX.
E
as fendas abertas na tentativa de se manter “Episteme” única, começa a ser
superada, com a ruptura para novas e múltiplas epistemes, sobretudo do oriente
e dos países colonizados; e a interdisciplinaridade torna-se uma realidade
relevante nas pesquisas contemporâneas.
Conforme
pensamentos descritos por MORIN
(1999) e NICOLESCU (2001), os
sistemas de educação, fundamental ou superior, deve incentivar a comunicação
entre as diversas áreas do saber e a busca das relações entre os campos do
conhecimento e a arte, desmoronando as fronteiras que inibem e reprimem a
aprendizagem.
Trata-se da transcendência do pensamento linear que, sozinho, é reducionista. Transdisciplinaridade é a prática do que une e não separa o múltiplo e o diverso no processo de construção do conhecimento, inclusive a bagagem emocional do pesquisador é importante para a pesquisa.
E
nesse movimento de compreensão das complexidades atuais, o Programa de Estudos
de Cultura Contemporânea da Universidade Federal do Mato Grosso, propõe olhares
e atravessamentos na busca da compreensão de muitas angustiais regionais e
nacionais, propiciando, dessa forma, o encontro entre a arte, antropologia,
sociologia, psicologia, direito e a música, para compor a trama cientifica em
busca da relevância social cientifica nos dias atuais.
Podemos exemplificar com três pesquisas,
duas de doutorado e uma de mestrado, que dialogam com essas possibilidades
abertas de produção de conhecimentos.
A
primeira pesquisa a citar, de doutorado, do discente Atilio Viviani Neto, tem
como objeto vasculhar as “ruinas” culturais imateriais quilombolas e
afro-pantaneiras de Vila Bela da Santíssima Trindade-MT, sobre a relação
ancestral dessas comunidades com o que eles entendiam por “Natureza”; e auferir
essa memória cosmopolítica da relação Humano-Natureza, que se manteve do século
XVIII até o retorno da (re)colonização do centro-oeste, que ocorreu por meio de
políticas públicas de ocupação nas décadas de setenta e oitenta do século XX,
durante a ditadura civil-militar.
Imagem
da “Festança” de Vila Bela, típica manifestação Quilombola
E a partir do implemento da cosmovisão
do colonizador no território de estudo, pretende-se descrever quais
subjetividades foram estabelecidas nessa nova versão de relação com a natureza.
Para tanto, serão utilizados na prospecção dos artefatos cosmopolíticos
quilombolas, métodos interdisciplinares transitando pela arqueologia,
antropologia e sociologia, com intuito de levantar, mapear, descrever e
interpretar lugares, gentes e seus significados.
Cachoeira
do Jatobá, Vila Bela; a quarta maior do Brasil.
Quanto a cosmovisão contemporânea,
instituída por políticas públicas e atores da (re)colonização do centro-oeste,
será utilizado método etnográfico, com trabalho de campo por meio do contato
intenso e prolongado do pesquisador com a cultura do grupo e seu sistema de
significados, que no caso serão representados pelos produtores rurais, que
vieram colonizar a região.
A
segunda pesquisa em andamento, é do mestrando Luiz Francisco Hipolito, trata de
um estudo de caso o qual propõem discutir o ambiente sonoro no contexto de uma
escola particular de ensino na cidade de Primavera do Leste/MT, colégio San
Petrus local onde o autor leciona a disciplina de Arte. A turma a ser
pesquisada é composta de 23 alunos do 8º ano matutino na faixa etária de 13
anos no primeiro semestre de 2021. Tal proposta propõem verificar como um grupo
de adolescentes percebem, transcrevem e organizam os sons no ambiente escolar e
o seu sentimento de pertencimento ao local através dos sons.
Assim,
promover situações junto aos alunos de modo a favorecer o desenvolvimento da
compreensão musical e também da consciência a respeito de ambientes acústicos e
sonoros no ambiente, através do conceito que foi proposto pelo compositor e
pesquisador canadense Raymond Murray Schafer, definições como paisagem sonora,
som fundamental, marca e sinal sonoro. Tendo o projeto final a produção de
partitura e escritos não convencionais, estimulando a criação musical,
diferentes grafias sonoras
Em outro contexto, o projeto de doutorado de Thiago Oliveira da Silva, que se situa na
intersecção das temáticas do Espaço Social, Corpo, Professores aposentados do
Instituto Federal de Mato Grosso, Estrutura social e Governabilidade. A
aposentadoria é um desejo para maioria dos indivíduos, uns ainda buscam relutar
mas um dia ela chegará, exceto pela interrupção da vida.
Antigamente a aposentadoria era desejo
dos indivíduos, mas na sociedade moderna a aposentadoria transformou-se em um
valioso instrumento de mercado econômico por parte do Estado. O fio condutor
deste projeto parte da seguinte questão: como os discursos e práticas
governamentais fazem com que os indivíduos aposentados estejam ou não submisso
ao controle do Estado. Entende-se como discurso governamental os métodos do Estado
para alcançar determinados objetivos, por exemplo, a reforma da previdência.
A
própria noção de discurso é ultrapassada para além da mensagem, agregando as
propagandas em prol ou contra determinados setores da sociedade nos meios de
comunicação. Como centro teórico, traz-se os conceitos operadores do corpo com
a obra de Michel Foucault, a psicologia de Bosi e a concepção de representação
social de Pierre Bourdieu.
Se
por um lado o corpo tem sido colocado tradicionalmente em nossa cultura como
objeto da biologia e da medicina que possuem “autonomia” como ciências com
conhecimentos especializados na intervenção sobre aquilo que ele apresenta de
natural. Aqui se faz necessário um parêntese, a noção de discurso sobre o corpo
dos indivíduos na sociedade moderna é estendido para compreender também a busca
do poder estatal em controlar, conduzir e limitar a ocupação dos espaços
sociais.
Finalizando,
o corpo não é monopólio de uma ou duas ciências – ao longo da história foi
objeto de interesse de muitos saberes: nos campos da economia, da educação, das
ciências políticas, da sociologia, da psicologia, das ciências humanas em
geral, e também tem sido alvo de práticas diversas: de moralização, de
normalização, de modelização, de “capacitação”, de “treinamento” - enfim, ele tem
sido objeto de múltiplas técnicas de construção (FILHO; TRISOTTO, 2008, p.
115).
BIBLIOGRAFIA
BOURDIEU,
P. Espaço social e espaço simbólico, in Razões Práticas: Sobre a Teoria
da Ação, Oeiras, Celta Editora, pp. 3-14, 1997.
COSTA,
A. F. D. Sociedade de Bairro, Oeiras, Celta Editora, 1999.
DEBERT,
G. G. Velhice e o curso da vida pós-moderno. REVISTA USP, São Paulo,
n.42, p. 70-83, junho/agosto 1999.
ELIAS,
N. A solidão dos moribundos, seguido de, Envelhecer e morrer; tradução,
Plínio Dentzien. — Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
FILHO,
K. P.; TRISOTTO, S. O corpo problematizado de uma perspectiva histórico
política Psicologia em Estudo. Redalyc, vol. 13, núm. 1, janeiro-março, pp.
115-121, 2008.
NICOLESCU,
B. O manifesto da transdisciplinaridade. São Paulo: Triom, 2001.
MORIN, E. Complexidade e transdisciplinaridade: a reforma da universidade e do ensino fundamental. Natal: EDUFRN, 1999.
WAGNER, Roy. A invenção da Cultura. São Paulo: Cosac & Naify, 2006.
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