Da cisão do conhecimento ao protagonismo da completude cientifica.

 Atilio Viviani Neto
Luiz Francisco Hipolito
Thiago Oliveira da Silva

A produção de conhecimento aos moldes eurocêntrico, tal como apreendemos e fomos induzidos pela lógica colonial, por meio de sistemas sociais e institucionais como a escola, algumas comunidades, Universidade, hospitais, serviços militares etc; inicia-se com a “Revolução Cientifica” aproximadamente a partir do século XVII, e teve como uma das angustias impulsionadoras, a vontade de compreender os fenômenos do mundo em sua totalidade.

Isso se deve ao fato do interesse humano localizado naquele tempo/espaço determinado, sentir a necessidade histórica de ir além dos preditos rígidos e dogmáticos dos cristianismos, sobretudo católico e protestante, e suas visões definitivas, inconteste e divinal dos fenômenos da vida, agenciadas pelos monarcas e pelo alto clero e seus propósitos.
        Entretanto, o afastamento processual dos fundamentos da provisão divina em direção as novas formas de compreensão, proporia modelos e a criação de métodos para amparar essa forma de produzir conhecimento, no qual a ideia de uma Razão, recém inventada (Wagner, 2006), deveria se descolar da religião e se orientar pela interpretação “real” e objetiva dos fenômenos, com cientificidade e divididos entre Naturais e Sociais. E essa divisão consolida a ideia de disciplinar os conhecimentos e subdividi-las em categorias próprias, para dessa forma aprofundar o conhecimento racional, utilizando métodos próprios e “adequados” para validar o agora definido: Conhecimento Científico.

Dessa forma, para consolidar o novo imaginário do Pensador/Cientista Moderno ocidental, elabora-se por padrões rígidos de aprofundamentos em matérias especificas, e a profissão de cientista (criado por William Whewell, que cunhou o termo em 1833), deve ser exercida como especialista e erudito apenas em seu ramos de estudo categórico.

        Essa construção conceitual propiciou muitas vantagens ao mundo do conhecimento ocidental frente a outros, e colaborou para o triunfo do iluminismo a partir do final do século XVIII até os dias de hoje. Porém a separação profunda do modelo de conhecimento construído, não conseguiria dar respostas a complexidade social do mundo a partir da segunda metade do século XX.

       E as fendas abertas na tentativa de se manter “Episteme” única, começa a ser superada, com a ruptura para novas e múltiplas epistemes, sobretudo do oriente e dos países colonizados; e a interdisciplinaridade torna-se uma realidade relevante nas pesquisas contemporâneas. 

        Conforme pensamentos descritos por MORIN (1999) e NICOLESCU (2001), os sistemas de educação, fundamental ou superior, deve incentivar a comunicação entre as diversas áreas do saber e a busca das relações entre os campos do conhecimento e a arte, desmoronando as fronteiras que inibem e reprimem a aprendizagem.
      Trata-se da transcendência do pensamento linear que, sozinho, é reducionista. Transdisciplinaridade é a prática do que une e não separa o múltiplo e o diverso no processo de construção do conhecimento, inclusive a bagagem emocional do pesquisador é importante para a pesquisa.
          E nesse movimento de compreensão das complexidades atuais, o Programa de Estudos de Cultura Contemporânea da Universidade Federal do Mato Grosso, propõe olhares e atravessamentos na busca da compreensão de muitas angustiais regionais e nacionais, propiciando, dessa forma, o encontro entre a arte, antropologia, sociologia, psicologia, direito e a música, para compor a trama cientifica em busca da relevância social cientifica nos dias atuais.

        Podemos exemplificar com três pesquisas, duas de doutorado e uma de mestrado, que dialogam com essas possibilidades abertas de produção de conhecimentos.     

      A primeira pesquisa a citar, de doutorado, do discente Atilio Viviani Neto, tem como objeto vasculhar as “ruinas” culturais imateriais quilombolas e afro-pantaneiras de Vila Bela da Santíssima Trindade-MT, sobre a relação ancestral dessas comunidades com o que eles entendiam por “Natureza”; e auferir essa memória cosmopolítica da relação Humano-Natureza, que se manteve do século XVIII até o retorno da (re)colonização do centro-oeste, que ocorreu por meio de políticas públicas de ocupação nas décadas de setenta e oitenta do século XX, durante a ditadura civil-militar.

Imagem da “Festança” de Vila Bela, típica manifestação Quilombola

        E a partir do implemento da cosmovisão do colonizador no território de estudo, pretende-se descrever quais subjetividades foram estabelecidas nessa nova versão de relação com a natureza. Para tanto, serão utilizados na prospecção dos artefatos cosmopolíticos quilombolas, métodos interdisciplinares transitando pela arqueologia, antropologia e sociologia, com intuito de levantar, mapear, descrever e interpretar lugares, gentes e seus significados.

Cachoeira do Jatobá, Vila Bela; a quarta maior do Brasil.


        Quanto a cosmovisão contemporânea, instituída por políticas públicas e atores da (re)colonização do centro-oeste, será utilizado método etnográfico, com trabalho de campo por meio do contato intenso e prolongado do pesquisador com a cultura do grupo e seu sistema de significados, que no caso serão representados pelos produtores rurais, que vieram colonizar a região.

            A segunda pesquisa em andamento, é do mestrando Luiz Francisco Hipolito, trata de um estudo de caso o qual propõem discutir o ambiente sonoro no contexto de uma escola particular de ensino na cidade de Primavera do Leste/MT, colégio San Petrus local onde o autor leciona a disciplina de Arte. A turma a ser pesquisada é composta de 23 alunos do 8º ano matutino na faixa etária de 13 anos no primeiro semestre de 2021. Tal proposta propõem verificar como um grupo de adolescentes percebem, transcrevem e organizam os sons no ambiente escolar e o seu sentimento de pertencimento ao local através dos sons.

            Assim, promover situações junto aos alunos de modo a favorecer o desenvolvimento da compreensão musical e também da consciência a respeito de ambientes acústicos e sonoros no ambiente, através do conceito que foi proposto pelo compositor e pesquisador canadense Raymond Murray Schafer, definições como paisagem sonora, som fundamental, marca e sinal sonoro. Tendo o projeto final a produção de partitura e escritos não convencionais, estimulando a criação musical, diferentes grafias sonoras

         Em outro contexto, o projeto de doutorado de Thiago Oliveira da Silva, que se situa na intersecção das temáticas do Espaço Social, Corpo, Professores aposentados do Instituto Federal de Mato Grosso, Estrutura social e Governabilidade. A aposentadoria é um desejo para maioria dos indivíduos, uns ainda buscam relutar mas um dia ela chegará, exceto pela interrupção da vida.

       Antigamente a aposentadoria era desejo dos indivíduos, mas na sociedade moderna a aposentadoria transformou-se em um valioso instrumento de mercado econômico por parte do Estado. O fio condutor deste projeto parte da seguinte questão: como os discursos e práticas governamentais fazem com que os indivíduos aposentados estejam ou não submisso ao controle do Estado. Entende-se como discurso governamental os métodos do Estado para alcançar determinados objetivos, por exemplo, a reforma da previdência.

          A própria noção de discurso é ultrapassada para além da mensagem, agregando as propagandas em prol ou contra determinados setores da sociedade nos meios de comunicação. Como centro teórico, traz-se os conceitos operadores do corpo com a obra de Michel Foucault, a psicologia de Bosi e a concepção de representação social de Pierre Bourdieu.

         Se por um lado o corpo tem sido colocado tradicionalmente em nossa cultura como objeto da biologia e da medicina que possuem “autonomia” como ciências com conhecimentos especializados na intervenção sobre aquilo que ele apresenta de natural. Aqui se faz necessário um parêntese, a noção de discurso sobre o corpo dos indivíduos na sociedade moderna é estendido para compreender também a busca do poder estatal em controlar, conduzir e limitar a ocupação dos espaços sociais.

          Finalizando, o corpo não é monopólio de uma ou duas ciências – ao longo da história foi objeto de interesse de muitos saberes: nos campos da economia, da educação, das ciências políticas, da sociologia, da psicologia, das ciências humanas em geral, e também tem sido alvo de práticas diversas: de moralização, de normalização, de modelização, de “capacitação”, de “treinamento” - enfim, ele tem sido objeto de múltiplas técnicas de construção (FILHO; TRISOTTO, 2008, p. 115).

 

BIBLIOGRAFIA


BOURDIEU, P. Espaço social e espaço simbólico, in Razões Práticas: Sobre a Teoria da Ação, Oeiras, Celta Editora, pp. 3-14, 1997.

 

COSTA, A. F. D. Sociedade de Bairro, Oeiras, Celta Editora, 1999.

 

DEBERT, G. G. Velhice e o curso da vida pós-moderno. REVISTA USP, São Paulo, n.42, p. 70-83, junho/agosto 1999.

 

ELIAS, N. A solidão dos moribundos, seguido de, Envelhecer e morrer; tradução, Plínio Dentzien. — Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

 

FILHO, K. P.; TRISOTTO, S. O corpo problematizado de uma perspectiva histórico política Psicologia em Estudo. Redalyc, vol. 13, núm. 1, janeiro-março, pp. 115-121, 2008.

 
NICOLESCU, B. O manifesto da transdisciplinaridade. São Paulo: Triom, 2001.

MORIN, E. Complexidade e transdisciplinaridade: a reforma da universidade e do ensino fundamental. Natal: EDUFRN, 1999.

WAGNER, Roy. A invenção da Cultura. São Paulo: Cosac & Naify, 2006.





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