ARGUMENTAÇÃO LÓGICA DO PONTO DE VISTA HISTÓRICO AO IMAGINÁRIO POPULAR

 

ARGUMENTAÇÃO LÓGICA DO PONTO DE VISTA HISTÓRICO AO IMAGINÁRIO POPULAR

Valéria Pereira Moreira

Jill Margarete Rodrigues F. de S. Santos

 

          Todas as vezes que se produz um texto oral ou escrito do mais simples ao mais complexo, ou uma simples conversa com os amigos, colegas de trabalho, de escola ou familiares, estes textos precisam conter elementos, que transmitem a informação com eficiência, para isso acontecer, é necessário o conhecimento dos elementos, que regem a gramática da língua materna, assim como também, as estruturas, que compõem um texto, quando a intensão do autor seja convencer o seu interlocutor. Para isso acontecer, a argumentação é um elemento chave nessa tarefa, que ao ser elaborada com eficiência proporcionará reflexões, contestações e muitas vezes, o convencimento do ouvinte.

          Para se construir um texto, faz-se necessário se acercar dos mais diversos recursos, que a estrutura da argumentação possui, cujo objetivo seja a eficiência assertiva de se construir um texto, que visa convencer, persuadir, influenciar, formar opinião do leitor ou ouvinte, a respeito de um assunto, sobre o qual se acredita, e que se esteja convicto, e de posse da verdade.

          A argumentação formal deve ser construída com a finalidade de ser construtiva, ter um espírito de cooperação e socialmente útil.

            Descartes considera a evidência como o critério da verdade, a certeza que se chega pelo raciocínio, ou pela apresentação dos fatos, que independe da teoria aplicada ao estudo, que se realiza. Os cinco principais tipos de evidência mais comum são: os fatos, os exemplos, as ilustrações, os dados estatísticos (tabelas, números, mapas, entre outros), e o testemunho.

          Na argumentação informal, ou seja, na língua falada, na vida cotidiana faz presente em todas as conversas, sejam elas oral ou escrita, frequentemente são narrativas, descritivas, essencialmente, argumentativas. Ao narrar, contar, descrever episódios, se preciso for inventar casos, peripécias, as chamadas “conversa de pescador”, que são inventadas com muita criatividade, nessas ações em que o narrador expressar sua opinião sobres os fatos, ele estará procurando convencer o pequeno ouvinte a aceitar aquele ponto de vista, para que ele seja convencido a concordar com o narrador. Assim sendo, a argumentação consiste, essencialmente, numa declaração seguida de provas sejam elas os fatos, razões e evidências, que se declara com a maior naturalidade. Esse tipo de argumentação esbarra na possibilidade, correndo o risco de ser falacioso ao se basear, apenas em indícios.

          Para não correr este risco, a argumentação deve ser constituída pela proposição que pode ser uma tese, uma declaração, uma opinião, atribuída a terceiros, e não a quem fala diretamente, usando a expressão: “dizem que fulano...” a partir desse momento, o interlocutor pode ou não acreditar no autor da mensagem, criando a possibilidade da concordância parcial sobre essa informação, uma vez que, sempre existe os dois lados da moeda. Outra possibilidade é a contestação ou a refutação por parte do ouvinte, referente à informação recebida, uma vez que, é possível se opor aos argumentos, usando elementos gramaticais, no caso, uma conjunção adversativa (“mas por outro lado...” “entretanto...”).

          Para a argumentação formal usa-se a mesma estrutura da informal, porém a formal exige outros cuidados, especialmente, quando se trata de conteúdo científico, para isso, o pesquisador precisa se acercar de autores que vão embasar as argumentações apresentadas pelo pesquisador. A proposição deve ser clara, definida, inconfundível ao negar ou afirmar, também não pode ser uma verdade absoluta, indiscutível, incontestável. De outra maneira, a proposição deve ser afirmativa e suficientemente específica para permitir uma tomada de posição contra ou a favor.

          A análise da proposição formal dever ser tratada com cuidado, escolhendo as palavras para elaborar as frases que não provoquem mal-entendidos, definindo com clareza o sentindo da proposição, para formular os argumentos, que constitui a argumentação, propriamente, dita. O autor apresenta as provas, as razões seguindo uma ordem coerente, que impressione o leitor ou ouvinte, e se cercando ao máximo de exemplos, estatísticas, ilustrações, comparações, descrições, narrações em quantidade suficiente e bem enumeradas, com autenticidade, relevância e adequação.

          A lógica está ligada a meios filosóficos ou podemos dizer que a uma correção de raciocínios, para encontrá-la é preciso estabelecer alguns critérios, é um ramo da filosofia que cuida das regras do pensamento racional ou do modo de pensar de forma organizada.      Em linhas gerais, a lógica das proposições, às vezes chamada de cálculo proposicional, pode ser definida como a lógica de alguns usos de “não”, “e”, “ou”, “se”, “então”, “é”, “somente”. Estas palavras figuram de maneira vital em algumas das mais básicas formas de argumentação usadas pelas pessoas. Inclui tipicamente símbolos especiais para as mais importantes palavras neutras quanto ao tópico. Não há um conjunto de símbolos usados pela maioria dos lógicos. Diferentes lógicos empregam diferentes símbolos para as mesmas palavras neutras quanto ao tópico.

          Ela não constitui um fim, mas sim um meio. Implícita no meio da lógica está a compreensão do que gera um bom argumento e quais os pensamentos que são falaciosos.

          Para Aristóteles a lógica dividi- se em lógica formal e material, enquanto a formal se preocupada na organização e estrutura de pensamento, a lógica material investiga a adequação de raciocínio à realidade.

          A construção do texto deve ser bem elaborada para prender a atenção do ouvinte/leitor, criando um suspense até o desfecho final da conclusão, que “nascerá” naturalmente dos elementos e provas apresentadas no texto, arrematando e colocando os termos claros, a essência da proposição.

 

 
                                                    
São Sebastião, santinho da igreja católica

Para mostrar as implicações da argumentação e a lógica aplicadas no trabalho científico, apresenta-se a narrativa sobre São Sebastião, um mártir da igreja católica, o defensor da igreja, teve seu corpo imolado por duas vezes, a mando do Imperador Diocleciano, pois o soldado foi chefe da guarda do Imperador Romano Diocleciano, e denunciado por ser cristão. Do ano 300 a 303 (d.C.) houve muita perseguição, aos cristãos, período da decadência do império romano, durante esses três anos ouve muitas mortes. Enquanto o soldado Sebastião chefiava a guarda do imperador, não abandonou as práticas religiosas, pois ele nascera em lar cristão na cidade de Narbona, França, não deixou de visitar os cristãos prisioneiros, mantendo o fervor nos quais, tinham a morte cruel, como o fim das suas vidas. Até que um dia, o soldado foi denunciado ao imperador, que, surpreso com tal revelação, mandou chamar os exímios arqueiros da Numídia, uma região desértica da África, onde a prática da caça só era possível, usando arco e flechas. Diocleciano ordenou, que o soldado fosse amarrado numa árvore seminu, e que ele fosse cravado de flechas, mas que elas não atingissem suas vísceras, para que sua morte fosse lenta e dolorida. Assim, os arqueiros executaram a ordem do imperador, e acreditando que o soldado estivesse morto, foram embora, e o deixaram amarrado na árvore. Vários amigos cristãos se prepararam para fazer o enterro do soldado, quando retiraram o corpo da árvore, constataram que Sebastião, ainda estava vivo, ele foi levado para casa da sua amiga Verônica, que tratou suas feridas, curado, o soldado decidiu enfrentar o imperador, mesmo contra a vontade dos seus amigos.

Era o dia 20 de janeiro, o imperador Diocleciano estava no templo do deus Hércules acompanhado de sacerdotes pagãos, entre tantos homens nobres, foi concedida uma audiência pública àqueles, que desejassem apresentar alguma queixa. Sebastião se apresentou e reclamou das atitudes do imperador, diante de tanta perseguição e crueldade aos cristãos. Naquele momento, Diocleciano ficou surpreso na presença daquele soldado, que até em tão, havia sido dado como morto. Imediatamente, ordenou aos guardas, que o executasse na frente de todos e dele mesmo, para se ter a certeza da sua morte. Os soldados moeram o corpo de Sebastião de pauladas e lanças. O imperador ordenou, que o corpo fosse jogado no esgoto da cidade. Mais uma vez, Sebastião foi socorrido pelos cristãos, que resgataram seu corpo e o sepultaram na Via Ápia. Após, a morte de Sebastião os cristãos, que admiravam seu trabalho junto àqueles presos condenados à morte pela prática religiosa, começaram a rezar por ele, essa prática se intensificou durante a epidemia da peste, quando, no ano de 680 a Itália foi acometida por uma grande peste, que matou muita gente. Nesse período muitos cristãos rogaram cura, e foram atendidos, e prometiam construir uma igreja em homenagem ao Sebastião. Assim sendo, São Sebastião é o protetor contra as pestes, a fome, e a guerra, ele é o defensor da Igreja, por ter desafiado as leis romanas em nome dela, São Sebastião faz parte do martiriológio cristão.

Ao longo dos séculos, a devoção a São Sebastião ganhou várias dimensões em paralelo à versão oficial da igreja católica, acima apresentada, e no imaginário popular a vida do soldado cristão, que viveu a imolação do próprio corpo por duas vezes, a mando do imperador romano, inspira a criação de pintores, escultores, desenhistas, ao iniciar os estudos da anatomia do corpo humano, reproduzem a cena do flagelo das flechas desferidas no corpo nu, amarrado numa árvore, que também transita, livremente, no imaginário gay se misturando ao sagrado da liturgia.

                                                

         
Elias Andreato, em Oscar Wilde, 1997

            O ator e diretor brasileiro Elias Andreato, por vários anos, se dedicou aos estudos sobre a vida do diretor britânico Oscar Wilde, que assumiu um romance por um rapaz muito jovem chamado Bosie, o diretor foi acusado de homossexual e preso por dois anos, ao assumir sua preferência sexual. Na prisão, Wilde recebia uma folha de papel e um lápis, nela registrou muitas reflexões sobre sua vida, o diretor recebia outra folha, após o preenchimento da primeira. Ao sair da prisão, no dia 19 de maio de 1897, Oscar Wilde recebeu as 80 folhas dos seus escritos, que não foram revisados pelo autor, ele não sabia qual seria o destino desse registro biográfico. Livre da prisão, Wilde estava pobre por ter gasto muito dinheiro, atendendo os caprichos do amante, a prisão denegriu, ainda mais, sua imagem na sociedade moralista da cidade de Londres, no final do século XIX.

            Elias Andreato constatou um sofrimento intenso na vida do Oscar Wilde, um misto de êxtase e sofrimento, que define sua personagem no monólogo, e ao terminar de redigir o roteiro, a única imagem, que veio em sua mente, foi a de São Sebastião. Para o material de divulgação da peça, Elias se caracterizou do mártir da igreja católica, como uma forma de transmitir a dor e a tristeza do diretor britânico. O monólogo foi apresentado no Stúdio Cristina Mutarelli na cidade de São Paulo, em 1997.

            Outro registro apurado pela pesquisa, é a devoção ao santo no imaginário gay, embora São Sebastião tenha sobrevivido às flechadas, morreu espancado com porretes, porém a morte por espancamento não ficou registrado em imagens, mas sim o episódio das flechadas, que tem alimentado as fantasias eróticas e sadomasoquistas, sem contar variadas anedotas. Nas cidades de Pareilas e Jardim do Seridó, Rio Grande do Norte, os padroeiros das cidades é São Sebastião. Conta-se que, uma beata perguntou ao padre da igreja de Pareilas se São Sebastião era gay, o religioso respondeu que não, dizendo, que “Gay é o São Sebastião de Jardim de Seridó.”

   No imaginário popular, a lenda e a verdade andam de mãos dadas, dividindo opiniões, conceitos, práticas, culturas, tradições, fantasias, delírios, críticas a respeito do mistério, que cerca a vida de São Sebastião, sem saber ao certo se é verdade ou mentira o fato é que a veneração ao santo continua. Na cidade de Maraú na baía de Camamu, pertencente à Diocese de Ilhéus, o professor de Estética e Filosofia da Arte da Universidade Federal da Bahia, Edvaldo Souza Couto, encontrou uma imagem sacra de São Sebastião com características femininas. O santo não tem nenhuma expressão de dor, sofrimento ou agonia, com o peito nu, ele veste apenas um pequeno short vermelho, adornado com faixas, algumas flechas estão fincadas no peito, braços e pernas, e das feridas jorram sangue. Na cabeça, o santo tem um adorno de folhas, que parece um cocar indígena. As sobrancelhas finas estão erguidas, os olhos redondos bem abertos, as bochechas cheias, são pálidas, que realçam o “batom” vermelho nos lábios finos. São Sebastião usa uma bolsinha de tecido de seda, ornamentada com pequenas pedras brilhantes e o cordão é feito de crochê.

São Sebastião, imagem sacra, Maraú-BA
Fonte: Revista GLS Brasil, s.d., nº 17

                A imagem sacra de Maraú-BA revela a devoção e a dedicação ao santo, com a liberdade de adorná-la sem a preocupação com julgamentos, ou acusações, a existência dessa imagem trabalhada com ricos detalhes de ornamentação e adornos, um pouco exagerados aos moldes das imagens sacras, existentes nas igrejas católicas, mesmo assim, ela não perde o seu valor, quando se trata de fé, o devoto não vê preconceito.

            Com base nas informações citadas, pode-se concluir que argumentação e lógica caminham juntas. Para que o argumento seja válido, não basta que a conclusão seja verdadeira. É preciso que as premissas e a conclusão estejam relacionadas corretamente. Distinguir os raciocínios corretos dos incorretos, é a principal tarefa da lógica. Os argumentos sempre apresentam uma ou mais premissas e uma conclusão. Finalmente, os termos, textos ou frases, afirmação, proposição, sempre em busca do que é sim (verdade) ou não (falso), não importa a palavra, é que toda argumentação trará suas premissas, como também suas conclusões, somente para opinarmos sobre o que é ou não é a verdade.

 

 

 


Comentários

  1. Texto agradável, conta uma estória que mantém o leitor atento. As autoras conseguiram manter a coesão, mesmo unindo temas diferentes. O final do texto poderia haver sido deixado em aberto, para que os leitores pudessem - cada um - elaborar suas próprias versões.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Uma perspectiva lógica e argumentativa: a matéria-prima da ciência.

VALIDAÇÃO CIENTÍFICA: PRODUÇÃO, REFERÊNCIAS E MÉTODOS

Da cisão do conhecimento ao protagonismo da completude cientifica.