Ciência: necessária, mas deixada ao abandono
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS DE CULTURA CONTEMPORÂNEA – ECCO
Alessandra Pereira da Paz
Mestranda ECCO
Aparecido Santos do Carmo
Mestrando ECCO
José Elias Antunes Neto
Mestrando ECCO
A relevância de um artigo científico nada tem a ver com importância, são coisas diferentes. O fator de impacto aplica-se às revistas científicas, já o fator “H” é para o pesquisador ou pesquisadora. Esses conhecimentos foram apresentados para estudantes de pós-graduação de diversas partes do Brasil, de forma remota, em aula da CAPES, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Trata-se de uma fundação do Ministério da Educação (MEC). O órgão foi implantado no início do governo de Getúlio Vargas, em 1951, com sede no Rio de Janeiro e transferido para Brasília em 1965. A aula ensinava como navegar na plataforma da CAPES e usufruir dos benefícios através de diversas ferramentas para os pesquisadores de qualquer canto do mundo. Suponhamos que buscamos por um dado confiável para saber qual é o órgão de fomento que mais financia a pesquisa no Brasil. Em meio a tantos, o primeiro lugar fica com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPq, uma agência governamental vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia. Tem como finalidade o fomento à pesquisa científica e tecnológica, e o incentivo a formação de pesquisadores no Brasil. CNPq também existe desde de janeiro de 1951. A longevidade dessas instituições nos dá a seguinte informação: não é de agora que o governo financia pesquisas no Brasil.
Diante de datas, números e siglas, torna-se ainda mais paradoxal perceber que as instituições públicas com maior número de serviços prestados ao desenvolvimento educacional encontram-se neste momento sob ataque do próprio Governo Federal. Em dois mil e dezenove, o então ministro da educação Abraham Weintraub declarou que era mais fácil encontrar um cientista desempregado que um encanador. Foi em uma solenidade em que ele defendia os cursos profissionalizantes. Não queremos fazer juízo de valor quanto à importância dos profissionais citados. Entretanto, é evidente que repousa nessa declaração do ex-ministro a intenção de querer desmerecer a ciência, assim como o próprio ex-ministro demonstrou total desapego pela cultura e povos originários dizendo que “odeia o termo povos indígenas” afirmando que somos apenas um povo, declaração que nos faz lembrar os sonhos de Hitler em criar uma raça “pura”. Mais de sete meses depois de iniciada a pandemia da Covid-19, o astronauta aposentado e Ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, fez uma apresentação com um gráfico sem nenhum dado sobre a possível eficácia de um vermífugo para combater o Sars CoV 2.
Diante das declarações que geram memes, os mais engraçados e debochados possíveis, podemos acreditar que a ciência, as pesquisas, pesquisadores e instituições não vão acabar por causa da competência técnica dos trabalhadores efetivos que lá estão. Governos passam e instituições permanecem, porém, é preciso que se tenha claro que o comportamento governamental que ora assistimos deve ser combatido sem retrucar palavras, mas com resultados, trabalhos de pesquisa que demonstrem a importância de instituições como a Universidade Federal de Mato Grosso. Citemos apenas um exemplo e façamos uma correlação entre a ciência e o agronegócio. A história da UFMT foi contada em uma série de reportagens apresentada pela TV Centro América, afiliada à Rede Globo, em 2019, intitulada Cuiabá 300, para comemorar os três séculos de fundação da capital de Mato Grosso. A matéria trouxe como um dos entrevistados o primeiro reitor da UFMT, Gabriel Novis Neves. Em um trecho da entrevista, ele afirmou que a Universidade Federal de Mato Grosso participou e participa do desenvolvimento de Mato Grosso por meio da pesquisa. Citou o norte do estado como um dos grandes beneficiários do trabalho científico da academia e afirmou: “Ênio Pepino”, um dos colonizadores do norte, “não saia da UFMT em busca de pesquisas referentes a sua região”. Talvez ele (Governo Federal) não perceba que o grão que é exportado para outros países, como a China e Estados Unidos, é produto da pesquisa. Talvez eles enxerguem apenas o frasco do remédio, não conseguem imaginar a gigantesca rede de pesquisa para se chegar ao resultado final da pastilha, do xarope ou da vacina. Como será que eles interpretam o resultado do ENADE?
O anúncio de corte de recursos para o ano de 2021 para as universidades públicas em todo país, causou polêmica em meio ao desempenho obtido no ano de 2019. Os resultados do Enade demonstraram a qualidade do ensino público no nível superior, representado em um percentual de 23,9% em um universo de 1.426 instituições públicas avaliadas com nota máxima (5) e apenas 11 instituições obtiveram nota 1. Os resultados divulgados são contraditórios à justificativa apresentada para o corte de recursos, como podemos cortar recurso para atuar na qualidade? Será que não são esses mesmos recursos que as possibilitam a garantia da qualidade?
Ponto básico para o desenvolvimento socioeconômico de um país, a Educação vem sendo escanteada há algum tempo. Além da desvalorização interna, dos agentes do governo que deveriam trabalhar para promover melhores condições de acesso e permanência para os diferentes pesquisadores que atuam nas 2248 instituições de ensino superior espalhadas pelo Brasil, professores e alunos passaram a ser vistos por parte da sociedade de forma negativa. Isso pode ser creditado à discursos extremistas que tentam deslegitimar qualquer sinal de intelectualidade que não se coloque em posição subserviente diante de projetos autoritários, como no episódio em que o ex-ministro Weintraub afirmava que haviam plantações de maconha nas universidades federais.
A imprensa tem lá a sua parcela de culpa, por retratar estudantes universitários de forma generalizada, como se fossem todos um personagem só: filhinhos de papai sem nenhuma ocupação. Ignoram, contudo que estudar é uma ocupação, que exige esforço e dedicação, que é estudando que se produz ciência e que são os estudantes do presente que ocuparão as funções de liderança nas equipes de pesquisadores do futuro. Em casos pontuais, como na crise sanitária atual, os estudantes são apresentados de um ponto de vista otimista, mas em “condições normais”, se mantém praticamente exilados da cobertura jornalística generalista, a não ser quando algum grupo é reconhecido publicamente por suas contribuições à um determinado campo (e aí, a Academia se impõe como pauta), ou então quando são personagens de acontecimentos negativos.
Por fim, a Academia e seus membros também têm alguma responsabilidade por essa visão preconceituosa que visa desacreditar a ciência nacional. Isolando-se da sociedade por trás de seus muros e mantendo seus trabalhos impecavelmente escondidos em arquivos ou gavetas inacessíveis, os pesquisadores se mantêm fora do cotidiano da maior parte das pessoas e deixa espaço para que discursos absurdos proliferem, como acontece no atual governo. É necessário que mais do pesquisar e apresentar resultados aos pares em congressos e seminários, os cientistas promovam ações de extensão e encontrem formas de disseminar esse conhecimento. Algumas das possibilidades são os veículos de comunicação e divulgação científicos, especializados em transmitir ao grande público as novidades dos campos mais diversos do saber, mas os veículos de comunicação públicos e educativos também devem ser acionados sempre que possível. Ao menos enquanto eles continuam a ser financiados.
Afinal, a ciência e a educação sempre foram essenciais, mas neste momento a sua relevância fica ainda mais evidente. São os cientistas, principalmente das instituições públicas, e pesquisas que recebem aportes (financiamentos), que desenvolvem os trabalhos que poderão nos ajudar a superar esta crise e as outras possíveis de acontecerem.

Interessante recuperação dos primórdios das instituições de fomento à pesquisa, ciência e pós-graduação no Brasil.
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