Influenciadores do caos
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO DE ESTUDOS DE CULTURA CONTEMPORÂNEA – ECCO
Disciplina: Escritura Científica.
Ministrada pela Prof. Dr.ª Andréa Ferraz Fernandez em Ensino a Distância
(EaD) – 2020/2, no período de 30/09/2020 a 13/11/2020.
Alessandra Pereira
da Paz.
pazalessandra@terra.com.br
Mestranda ECCO
Aparecido Santos do Carmo
Mestrando ECCO
José Elias Antunes Neto
Mestrando ECCO
Atualmente a sociedade tem utilizado de tecnologias
da informação e comunicação para se midiatizar, ampliando suas conexões com
pessoas e sua visibilidade. Tornar-se celebridade converteu em valor e o
desejo, até mesmo de crianças, é ganhar fama pela rede mundial de computadores,
atualmente conhecidas como celebridades da internet.
A utilização de redes sociais como a do Instagram para
visibilidade, possibilita às celebridades a acessarem seu público e assim obter
fama. Nesse ambiente a figura pública compartilha momentos do seu cotidiano,
utilizando de enquadramentos para produção de sentidos e provocar a
participação direta ou indireta do seu público em seu ambiente social virtual.
Observamos uma figura pública em sua trajetória através dos enquadramentos e
publicações nas redes sociais, analisando os sentidos produzidos dessas
publicações e das posições assumidas pelo sujeito na relação com seu público.
Nesse sentido, a figura pública é observada por meio
dos acontecimentos, abrindo perspectivas para novos olhares diante dos sentidos
produzidos a partir da experiência com esse acontecimento. Essa relação entre a
figura pública e seu público reflete o vínculo que os fãs atribuem às
celebridades, além de apreciar o personagem, estabelece uma relação de amor e
ódio pelos seus ídolos, criando um vínculo, uma identificação. Assim como a
figura pública interpela seu público nos faz compreender, também, como o Outro
reconhece essa figura pública.
Em março do ano vigente, 2020, em análise a uma
celebridade com mais de 80.000 seguidores, residente do município de Poconé,
marcado pelo início da pandemia, percebe-se que figura pública continua suas
publicações, mas em meio aos comentários aparecem registros das primeiras
críticas em relação à conduta da figura pública. Em abril ele inicia um período
de silencio midiático, caracterizando uma dificuldade de se adequar à situação
problemática do momento - termo do filósofo John Dewey para
descrever o momento da ação diante de um problema por meio do pensamento
reflexivo. Ele volta então à sua rotina de publicações em maio, expondo
reuniões e confraternizações, promovendo aglomerações, sem a utilização de
máscara de proteção, mantendo o silencio sobre a pandemia, ignorando totalmente
a crise.
Mesmo
em negação ao estado de pandemia, a relação com seu público continua, com
comentários ignorados por parte da celebridade, que demonstra preferência em
responder somente os comentários que não possui abordagem sobre tal assunto, o
que nada alterou a sua popularidade ou diminuísse seu número de seguidores, o
que emerge um apoio sobre as postagens. Essa interação com a celebridade por
meio de comentários escritos, mesmo que ignorado ou “negado” pela figura
pública, demonstra que a influência exercida nas redes sociais não consegue
calar a voz daqueles que ainda acreditam ou respeitam as normativas de saúde em
decorrência da pandemia. São os influenciadores com a habilidade para utilizar
todos os meios verbais exposto nas redes sociais e inclusive em rodas de
amigos.
A
língua falada ou escrita evolui com o tempo e um dos motivos pode ser a
interpretação de cada momento de acordo com os acontecimentos políticos, econômicos,
sociais e culturais. Podemos raciocinar que tais motivos propiciam o surgimento
de novas palavras ou o uso mais corriqueiro de termos antigos, porém que se
encontravam “adormecidos”. Exemplo: “bacana”. Quem tem mais de cinquenta ou
sessenta anos vai se recordar que os seus pais pronunciavam muito essa palavra
para expressar a grandeza de determinada ação ou situação. Em tempos de
pandemia e outras patologias, inclusive morais, que assolam o mundo, o termo “negacionismo”
entrou para o cotidiano linguístico dos seres humanos. Não se trata de uma
palavra solta ou simplesmente para rotular politicamente alguém. Trata-se de uma
ação pensada, predeterminada, em que os negacionistas negam serem, ainda que
neguem a realidade mostrada por números incontestes como as mortes por Covid-19,
quando o Brasil alcançava a marca de 143.952 mortes pela doença e o mundo ultrapassou
um milhão de óbitos no dia primeiro de outubro de dois mil e vinte.
O negacionista nega a realidade para desautorizar a
verdade em favor de uma ideologia capitaneada por aquele que se apresenta como
sendo ele e suas ideias soluções para os problemas que às vezes são criados
pelo próprio indivíduo que assim se comporta, utilizando do cargo que ocupa, no
caso, a Presidência da República, para gerar a polarização. Em se tratando da
catástrofe sanitária no Brasil, um capitão da reserva do Exército que se
ascendeu à Presidência da República por meio do voto democrático julgou-se ser
o dono da verdade e negou a realidade, sendo acompanhado por seus apoiadores,
manobrados por meio das redes sociais, nas quais também se multiplicou a
pós-verdade sobre o assunto por meio de suas redes, como é o caso da
celebridade de Poconé. Nem sempre falando, mas por meio das suas ações em não
atender às orientações da Organização Mundial de Saúde e da comunidade
científica sobre as medidas de segurança sanitárias para evitar o contágio.
Partindo do princípio da negação, com a polarização
do tema Covid, em especial nas redes sociais, negaram-se também direitos
básicos, como água tratada aos indígenas e até mesmo o fato de eles serem povos
originários. Nessa mesma situação ficaram os migrantes, embora a Constituição
Brasileira determine tratamentos iguais para os que se refugiam em nosso país e
que estejam legalmente instalados, pois, uma vez legalizados, pagam impostos
como todos os brasileiros. Entretanto, os indocumentados foram deportados. A
situação dos migrantes já se mostrava complicada desde antes da pandemia, já
que órgãos como a Polícia Federal não estavam conseguindo atender à demanda dos
que chegavam, demorando de noventa a cento e vinte dias para expedir o
documento necessário para a permanência dos venezuelanos que fugiram da crise
em seus país em busca de emprego, renda e moradia no Brasil.
Nesse fenômeno contemporâneo de negar aquilo que
está diante dos próprios olhos, mas agarrar-se a uma versão enviesada
condizente com desejos e crenças pessoais, destacam-se os posicionamentos das
personalidades que costumeiramente desfilam pelas distintas telas que nos
rodeiam, além das ondas do rádio e páginas de jornais e revistas. Posicionar-se
nessa conjuntura em que vivemos é acenar em direção à uma massa de apoiadores
em potencial, sobretudo nas redes sociais, espaços repletos de pessoas mais
preocupadas em se cercar de pontos de vista semelhantes, do que se abrir para o
novo, o plural e o contraditório.
De lideranças políticas à subcelebridades, passando
por grandes nomes da cultura popular e os rostos que surgem com o crescimento
das novas mídias digitais, dificilmente encontra-se alguém em cima do muro,
para usar expressão popular. Dentre estes estão aqueles que se tornam
influenciadores da negação , repetindo os mesmos argumentos com novas palavras,
reafirmando os mesmo discursos “é uma gripezinha”, “todo mundo vai pegar”, “tem
que ter coragem”, assumindo uma postura de quem diz “eu não sou coveiro, vamos
mudar de assunto”, como se as vítimas da
doença e da ineficiência do Estado e os seus familiares não devessem ser
lembrados e respeitados.
Não é surpreendente que dentre essas hordas furiosas
estejam também aqueles que defendem que a Terra seja plana, que o rock é
satanista, que o racismo não existe. Ideias que já deveríamos ter superado e
que mostram que ainda estamos longe de resolvermos os nossos velhos problemas,
alguns dos quais estão aqui desde a chegada de Cabral. Esses negadores de
profissão, que se tornam famosos por suas ligações íntimas com o poder em
Brasília e não raro por constarem nas listas de investigados de operações
policiais, vão desaparecer em quatro ou oito anos. A sociedade organizada deve
mobilizar-se para que seus discursos criminosos e fundados numa ideologia
reacionária e atrasada não causem ainda mais estragos.

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