INFORMAÇÕES FALSAS NOS AMBIENTES VIRTUAIS E OS IMPACTOS NA PESQUISA CIENTÍFICA

 

INFORMAÇÕES FALSAS NOS AMBIENTES VIRTUAIS E OS IMPACTOS NA PESQUISA CIENTÍFICA

 

Outubro 25, 2020

                                                                                            Disciplina: Escritura Científica

                                                                                            Prof. Dr.ª Andréa Ferraz Fernandez

Discentes:  Silvia Mara Davies

Maria Teresinha Dias

Manoel Antonio de Oliveira

Naiara Cristina Gonçalves Rocha Passos

 

Vivemos em uma época em que a comunicação online ganhou um alcance imensurável, somos bombardeados a todo tempo com uma série de notícias, boatos, histórias, informações (chamadas clickbaits) que são publicadas para “atrair” a atenção e ganhar cliques. A questão é que muitas vezes essas informações são equivocadas e produzidas de forma errônea. Essas notícias falsas são denominadas como fake news, caracterizadas por possuírem conteúdos equivocados e inverídicos, chamam a tenção e ganham abrangência nos ambientes online e nas redes sociais.

 

As disseminações de informações falsas nos ambientes virtuais

 

A estratégia de publicação de notícias falsas com o objetivo de alcance do público pode ser observada ao longo da história sendo estudadas por diversos pesquisadores. A exemplo, Delmazo e Valente (2018) destacam no artigo “Fake news nas redes sociais online: propagação e reações à desinformação em busca de cliques”, alguns autores que abordam essas questões mencionadas. Entre eles destaca-se Darton (2017) com quando avulta o surgimento dos paquins, no século XVI, apresentando como eram divulgadas notícias falsas e constrangedoras sobre pessoas públicas. Assinala também os chamados canards, século XVI, com as gazetas e suas falsas notícias. Outro autor mencionado no artigo foi McGuillen (2017), apresentando as notícias produzidas por falsos correspondentes estrangeiros na Alemanha, século XIX.

Essas inúmeras fake news, que carregam conteúdos fabricados, são tomadas como exemplo também pelos autores quando citam o caso dos repórteres que escrevem notícias de lugares que nunca foram. Relatam minuciosamente acontecimentos que não foram checados por eles. Constroem narrativas fantasiosas apresentando como verdades. Indo de encontro a estes apontamentos, Delmazo e Valente (2018) citam o repórter Theodor Fontaine que escreveu durante décadas para um jornal de Berlim, chamado Kreuzzeitung, caracterizado por ser extremamente conservador. O repórter escreveu narrativas descritivas sem nunca estar no local para apanhar essas informações, construindo assim notícias falsas. Percebe-se deste modo que a publicação de conteúdos falsos são estratégias de divulgação utilizadas ao longo do tempo, para atrair a atenção do público, ganhando mais abrangência na atualidade com a criação nos ambientes virtuais.

Os artigos e informações publicadas servem como forma de pesquisa para nossos estudos como pesquisadores. O ambiente virtual nos favorece por possibilitar inúmeras produções bibliográficas. Mas ao mesmo tempo que oferece uma gama de informações, entre eles existem as fontes errôneas que apresentam dados falsos, dificultando e interferindo nos nossos estudos. Na minha pesquisa de tese, tenho a preocupação com as informações buscadas, pois posso ter problemas na construção do texto.

Por meio desses apontamentos percebe-se a importância da verificação da procedência dos meios de informação que iremos fundamentar nossas pesquisas.

 

Variantes sobre o cenário Audiovisual e seus impactos na sociedade

 

Quando falamos em desenvolver um projeto o mais importante para garantir a qualidade de uma pesquisa científica é um bom planejamento, ou seja, uma boa metodologia, quando falamos em amostra de dados coletados como é o caso de muitos trabalhos ou de pesquisas exploratórias, é preciso que os dados coletados sejam suficientes para responder à pergunta para a qual a pesquisa busca uma resposta, para que possa demonstrar a hipótese. É necessário estudar bem qual será a escolha de método de análise estatística mais apropriado ao que se estuda, principalmente em pesquisas que lidam com grandes quantidades de dados, é importante também que os cientistas disponibilizem as bases dados utilizadas para que outros pesquisadores possam trilhar os mesmos passos.

Atualmente, as fakes news competem pela atenção do público com as notícias sobre importantes pesquisas veiculadas nas mais respeitadas e rigorosas revistas científicas do mundo. As motivações dos responsáveis pela propagação de informações mentirosas são várias, desde pura ingenuidade até interesses financeiros e políticos.

Quando falamos sobre o cenário do audiovisual e da comunicação em geral, podemos visualizar sobre os impactos das fakes, principalmente sobre cunho político ligado a essa temática. Recentemente tivemos eleições presidenciais onde muito foi falado sobre a lei Rouanet por exemplo, e a desinformação sobre como ela funciona e quem ela beneficia foi gigantesca, trazendo à tona muita discussão e opiniões contrarias a verdade, recebendo vários ataques dizendo a lei beneficia apenas apoiadores e artistas do governo de esquerda, o que não é nenhum pouco verdade.                     

Essa lei é um dos principais mecanismos de fomento à cultura no Brasil, a Lei Rouanet permite que empresas e pessoas físicas destinem, a projetos culturais, parte do Imposto de Renda (IR) devido. Para pessoas físicas, o limite da dedução é de 6% do IR a pagar; para pessoas jurídicas, 4%. O objetivo da lei é incentivar a produção cultural. Para isso, a União abre mão de uma parte do Imposto de Renda, a fim de que esses recursos sejam aplicados em projetos aprovados pelo Ministério da Cultura (MinC). A seleção é feita com base em critérios técnicos, já que a lei proíbe o MinC de qualquer avaliação subjetiva quanto ao valor artístico ou cultural das propostas apresentadas. Das dez maiores beneficiárias, três são aparelhos estatais (federal e estaduais, respectivamente): a Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira, a Fundação Bienal de São Paulo e a Fundação Osesp; e duas são empresas derivadas de outras gigantes nacionais: o Itaú Cultural, do Banco Itaú (o maior banco privado do País) e a Fundação Roberto Marinho, do Grupo Globo (o maior conglomerado de mídia da América Latina).

A T4F, maior beneficiária da lei, é a responsável pelo festival de música Lollapalooza (o ingresso para um dia de shows em 2019 custava 800 reais), shows nacionais e internacionais de grande porte e produções de teatro musical. Este último, inclusive, é o maior gênero artístico beneficiado pela Lei Rouanet, o que gera um retorno para o próprio governo Federal.

            Os projetos de pesquisas sobre esse tema ou variantes dele, precisam buscar informações nos órgãos competentes para que não seja baseado em dados falsos devido o número de fake News sobre esse assunto. As fake News envolvendo essa lei, criou uma bola de neve gigantesca sobre o assunto cultura no Brasil, sobre cinema, teatro e música, a sociedade praticamente se dividiu sobre aqueles que não acreditavam na importância desses fatores na sociedade e que de nada influenciava e dos que entendiam a necessidade de sua existência.

 

As Fake News e a pesquisa científica

 

Quando nos propomos a realizar uma pesquisa científica, estamos em busca de explicações para fenômenos que observamos no mundo. Uma ideia científica gera expectativas e argumentações, que buscam articular o raciocínio, justificando a conclusão sobre um determinado assunto. Levantamos uma hipótese e buscamos fatos que comprovem e validem nossa argumentação.

A divulgação científica necessita da utilização de recursos para a veiculação de informações, que chegarão até o público, considerado leigo sobre os diversos assuntos. Podemos encontrar notícias sobre temas científicos e tecnológicos nos mais variados espaços, como artigos científicos, revistas, jornais, televisão e redes sociais. O problema é identificar quais publicações são pautadas em fatos comprovadamente científicos. As Fake News sempre estiveram presentes nas mídias sociais, porém, na atualidade elas se disseminam com uma velocidade incrível, por meio do Whatsapp, Facebook, Twitter, entre outros canais de comunicação virtual.

Ao iniciarmos uma pesquisa, devemos tomar os devidos cuidados para que as notícias falsas não acabem nos persuadindo e influenciando, para que as consequências não sejam catastróficas. Assim, precisamos pensar em alternativas que nos levem a uma perspectiva menos alienada em relação à realidade e assim, evitar ser apenas um receptor ingênuo de tudo que nos é oferecido. Precisamos ter condições de tecer nossos próprios pontos de vista de forma crítica sobre a realidade.

Nesse sentido, a educação é necessária porque precisamos pensar em alternativas que formem cidadãos mais críticos e menos alienados sobre a realidade. No início do século XXI, o advento das redes sociais levou a todos para interações da vida online. Novas maneiras de se relacionar com o tempo e o espaço foram surgindo e os professores tentando se adequar a esse mundo. O pontapé inicial para essa solução foi a inclusão da educação midiática na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), com o objetivo de educar o aluno midiaticamente para que ele aprenda a analisar, a compreender, acessar e aplicar esse conhecimento no seu dia a dia e ainda, que aprenda a criar. Atualmente, em meio à pandemia, isso se intensificou e tornou-se uma necessidade. A educação foi considerada como sendo a única forma de interromper o ciclo de disseminação de fake news, segundo especialistas que participaram de audiência pública sobre o tema na Comissão de Educação (CE).

Fonte: Agência Senado

 

Reflexividade um ato de pesquisa.

 

 As pesquisas, neste texto com ênfase naquelas realizadas em ciências sociais, são primeiramente empreendimentos de construção de conhecimento. Nesse sentido, é fundamental que dentro da própria ciência haja um espaço de reflexão onde se questione e analise os rumos que esta tem tomado, os procedimentos empregados e a forma como os pesquisadores têm se relacionado com os sujeitos que participam da pesquisa.

Tanto o pesquisador quanto os sujeitos estão engajados em produzir conhecimento, constituindo um processo ativo que requer exame minucioso, reflexão e interrogação dos dados, do próprio pesquisador, dos participantes e do contexto em que eles habitam. Assim, um dos conceitos que se torna central no desenvolvimento de estudos em ciências sociais é a reflexividade. Para Guilhemin e Gillan (2004) a reflexividade é o caminho para o pesquisador analisar, questionar e, algumas vezes, se reposicionar nos temas e situações que freqüentemente se encontram fora do lugar na prática diária da vida social, estando intimamente ligada com as práticas éticas de pesquisa e que vem ocorrer no campo onde os comitês éticos não estão presentes para avaliarem e darem seu parecer.

Uma pesquisa reflexiva significa que o pesquisador deve constantemente analisar suas ações e suas regras no processo de pesquisa e sujeitá-las ao mesmo exame atencioso que o restante dos dados (GUILLEMIN; GILLAN, 2004). Entre os autores que destacaram a importância da reflexividade está Pierre Bourdieu, que aponta a importância de um processo reflexivo, baseado tanto na observação do assunto de pesquisa quanto na reflexão do próprio pesquisador.

Com relação ao primeiro ponto, Bourdieu (1996; 2005) destaca que o pesquisador deve buscar uma ruptura com o conhecido e o generalizado, evitando as armadilhas da pretensão do conhecimento do fato social e do conhecimento de suas determinações pelos atores e testemunhas, visto que seguindo este caminho podemos nos deixar levar pela representação dominante. Assim, na definição do objeto estudado o pesquisador deve buscar o máximo possível de autonomia, procurando construir explicações fundadas sobre variáveis não imediatamente notadas pelos indivíduos, cujas percepções são deturpadas política, social e institucionalmente pela família, pela escola, pelo Estado. Isto pode ser alcançado por um esforço consciente de teorização, por um retorno reflexivo sobre a análise da própria postura teórica, suas condições sociais de possibilidade, e como ela influencia a pesquisa como uma atividade prática (quais questões nós formulamos ou deixamos de formular, quais dados construímos, quais observações levamos a cabo, etc.) (BOURDIEU; WACQUANT, 2002).

Bourdieu discute amplamente em sua obra sobre o habitus sociológico, as disposições do pesquisador na aplicação de princípios abstratos em pesquisa empírica. Sua preocupação diz respeito às condições do conhecimento, à reflexividade, uma vez que todo conhecimento é condicionado pelo habitus. O autor leva em conta que o entendimento dos dados coletados muitas vezes não é só distorcido pelo habitus dos agentes, mas pelo próprio habitus do pesquisador. Por este motivo, Bourdieu propõe que devamos previamente buscar a análise das nossas próprias disposições, de modo a alcançar a universalidade mediante a identificação e a crítica da produção intelectual em que se dá a pesquisa.

A reflexão do pesquisador sobre seu papel como agente ativo na realidade social e capaz de resistir à ideologia hegemônica é fundamental para a construção de conhecimento. A reflexividade do pesquisador em seu trabalho de pesquisa impõe-se como um imperativo absoluto a todos que desejam resistir ao conjunto de conceitos dominantes (globalização, flexibilidade, multiculturalismo, etc.) desenvolvidos pelo ideário neoliberal que tem se difundido pelos campi universitários, acompanhando o processo ocorrido no mundo inteiro (BOURDIEU; WACQUANT, 2002).

Esta reflexão sobre e na pesquisa não é um momento único ou específico, mas um processo ativo e contínuo que deve estar presente em todos os estágios. Os temas de interesse do pesquisador e as questões que propõe, bem como aquelas que descarta, revelam algo particular de cada pesquisador. O desenho de pesquisa, métodos utilizados e modelos teóricos que direcionam os estudos, a escolha (e a exclusão) dos participantes e as interpretações e análises são governados por valores e, reciprocamente, ajudam a formar estes valores. Assim, a reflexividade na pesquisa é um processo de análise crítica do tipo de conhecimento produzido e de como este é gerado (GUILLEMIN; GILLAN, 2004). Além disso, a reflexividade força o pesquisador a levar em conta seu self e as identidades múltiplas que representam o eu fluido no ajuste da pesquisa. A reflexividade requer que se interrogue a respeito das formas pelos quais se conduz os esforços da pesquisa que se delineia e suas relações com as contradições e os paradoxos que dão forma a sua própria vida, sua interação com respondentes (GUBA: LINCOLN, 2005)

A reflexividade envolve reflexão crítica de como o pesquisador constrói conhecimento no processo de pesquisa (GUBA; LINCOLN, 2005). Aquele que adota uma postura reflexiva está consciente de todo seu potencial de influência e apto para voltar atrás e olhar criticamente sobre seu próprio papel na realização do estudo. Significa seguir um processo contínuo de exame crítico e interpretação, não apenas em relação aos métodos de pesquisa e aos dados coletados, mas também do próprio pesquisador, dos participantes e do contexto da pesquisa. Também devem ser consideradas as interações entre pesquisador e participante, que são o substrato da dimensão ética da prática de pesquisa. (GUILLEMIN; GILLAN, 2004).

Adotar uma postura reflexiva na prática de pesquisa representa o reconhecimento da dimensão ética da ação do pesquisador, expresso no respeito aos participantes na condução da pesquisa, no tratamento dos dados e nos resultados apresentados. A reflexividade permite ao pesquisador ter sensibilidade para agir em todos os momentos da prática de pesquisa em todas as suas particularidades; tendo ou sendo capaz de desenvolver um significado de indicar e responder a preocupações éticas se e quando estas surgirem na pesquisa.

Ao ser reflexivo, o pesquisador antes de conduzir o inquérito reflete sobre como suas intervenções durante a pesquisa podem afetar os participantes e considera como eles responderiam ao pesquisador em diferentes situações, as quais ele pode apenas prever. Reflexividade possibilita desenvolver ferramentas para responder apropriadamente aos estudos propostos. Assim, estará mais preparado para identificar os momentos eticamente relevantes, quando estes surgirem, e terá a base para seguir um caminho que respeite os envolvidos na pesquisa, mesmo em situações imprevistas.

Ao seguir uma ação reflexiva, o pesquisador é chamado a voltar-se para si mesmo, conhecer os motivos que o encaminharam para este tema ou aquela questão de pesquisa. É uma atitude de autoconhecimento e de consciência, onde o pesquisador assume sua posição tanto na relação com os participantes quanto com seus pares do campo científico. A reflexividade mostra que a postura do pesquisador, suas decisões teóricas e sua relação com os participantes criam um estudo único, não preocupado com a generalização e a descoberta das verdades, mas consciente e comprometido com sua forma de construção de conhecimento.

 

 

Comentários

  1. Interessante discussão sobre fake news. Consegue fazer uma relação com os métodos científicos de pesquisa. Atingiu o objetivo sugerido.

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