Lógica e argumentação
Alessandra
Pereira da Paz
Mestranda ECCO
Aparecido Santos do Carmo
Mestrando ECCO
José Elias Antunes Neto
Mestrando ECCO
Vocês já perceberam que algumas pessoas falam de forma rocambolesca? A pergunta é de uma professora em sala de aula, e completa: eles não só falam, como eles escrevem de forma rocambolesca. Rocambolesco deriva do nome Rocambole e os dicionários afirmam que o rocambolesco abunda em aventuras inverossímeis; enredado, cheio de peripécias. É uma trama como em um filme de ficção, uma novela que aguça a curiosidade de quem assiste para saber onde tudo vai acabar. Ou seja, não é uma história verossímil, portanto, não parece uma narrativa verdadeira. Diante desse argumento, é possível afirmar que a argumentação científica deve se cercar de conhecimentos sobre o tema escolhido para o debate e embasamentos a partir de estudos que ratificam uma situação acadêmico-científica.
A
argumentação deve responder às perguntas que o assunto requer, muito além do
básico comunicacional do “quem, quando, onde, como e por quê?”. Ainda que se
acrescente: “para quem?”. É fundamental que se encontrem as vertentes e os fios
condutores que nos levem à verdade sobre o tema para serem apresentadas de
imediato ao leitor, pesquisador ou aluno no primeiro instante da leitura, evitando
assim o “rocambolismo” da escrita e se aproximando rapidamente do leitor.
Argumentar é expressar nossas razões sobre o que pensamos e fazemos. (Scarpa
2015). Assim, compreender a argumentação é
importante tanto para formularmos boas razões para as afirmações proferidas
quanto para avaliarmos as razões fornecidas por outros sobre suas ideias e
ações.
É da natureza humana argumentar,
defender suas ideias e deixar fluir seus pensamentos de forma a convencer os
ouvintes, um processo presente em todas as estratificações sociais, do ambiente
familiar aos palácios governamentais. Entretanto, o argumento científico exige
provas, pois se trata de registros que entrarão para os acervos das pesquisas
e, com isso, contribuirão para o desenvolvimento do ser humano pesquisado,
pesquisador e leitor. Nas várias formas de argumentação, como em um tribunal,
em um discurso canônico, em sala de aula ou praça pública, é indispensável que
se tenha conhecimento do que se fala, caso contrário, a argumentação corre o
risco de cair no descrédito.
Nos últimos anos, em meio à
polarização e as notícias falsas, tornaram-se comuns os noticiários que trazem
frases como: “O Presidente afirmou sem apresentar provas”, caso do discurso de
Jair Bolsonaro na ONU quando ele afirma que as queimadas são causadas por
índios e caboclos. O pensamento
racional, o pensamento crítico, não deve se satisfazer com afirmações,
categorias sem embasamento. Alguns preceitos devem ser avaliados. (Scarpa 2015)
“Avalia a solidez das relações entre conclusões, dados e justificativas
apresentadas (a estrutura do argumento) e avalia a força e a verdade desses
elementos (o conteúdo das conclusões, dados e justificativas de acordo com os
parâmetros do contexto)”. Longe de querer esgotar o tema colocado em questão,
mas querendo criar oportunidades para abertura de novos caminhos acerca do
debate e contribuir com mais um pensamento que possa corroborar ideias
consolidadas e contribuir com novas ideias nos campos científico, público e
privado.
O ato de argumentar seja em concordância
ou oposição às ideias parte da interpretação e a experiência no tema discutido.
Em um diálogo frequentemente a ansiedade em expor seu modo de pensar, ouve
meramente por formalidade. Mas, não consegue compreender ou criar um raciocínio
lógico em resposta ou exposições do seu ponto de vista. O “achismo” é outro
ponto importante, entendendo que a minha opinião não pode ser considerada em
sua totalidade como verdade, partindo do princípio que para um fato há sempre
vários pontos de vista e são esses diversos ângulos que se baseiam os estudos
científicos, na busca de esgotar todas as possibilidades e apresentar a
comprovação.
Dessa forma, a argumentação quando
baseada em interpretação ou experiência sobre um determinado assunto é de
grande valia, trazendo para o debate, a exposição de um determinado ponto de
vista exercitando a argumentação em defesa de suas idéias, se baseando em fatos
concretos que sirvam de embasamento para construção de um pensamento lógico, em
substituição do “eu acho” para “devido a tal situação já vivenciada… acredito
que...”
É
característica central de uma comunicação eficiente, sobretudo quando se trata
da escrita acadêmica, que visa disseminar descobertas e novos pontos de vista
para a comunidade científica, que o que é dito seja compreensível para o
leitor. Em sua obra Writing for Social Scientists, o pesquisador
norte-americano Howard Becker (2008) apresenta o principal medo dos
pesquisadores iniciantes: não conseguir organizar seus pensamentos de forma
clara e que sejam julgados por seus colegas em razão disso. Ao contrário da
ficção, que busca conquistar o leitor pelos seus sentimentos, a escrita
acadêmica profissional se fundamenta na escrita estruturada de forma lógica de
modo a demonstrar que o autor domina o seu campo de estudos.
A
escrita exige planejamento desde o primeiro contato com as referências
bibliográficas levantadas. Fichamentos, mapas mentais, anotações em tópicos,
são muitas as maneiras de começar a ordenar os pensamentos de modo a construir
argumentações sólidas. Também é preciso estar aberto para a reescrita, etapa
fundamental para o aperfeiçoamento do material onde se eliminam os excessos e
aprumam-se as ideias.
Além
disso, é recomendado procurar uma voz própria. Isso pode ser feito respondendo
a uma simples pergunta: para quem escrevo? Se eu imagino um colega pesquisador
do campo das Humanidades, mas que não tem amplos conhecimentos do campo
jornalístico e não saberia diferenciar um perfil biográfico de um obituário,
por exemplo, meu texto precisa ser claro ao ponto de conseguir trazer esse
colega para a conversa, garantindo que após a leitura ele possa compreender
minimamente as discussões a respeito do assunto. Por fim, somente a prática nos
aproxima da perfeição já que alcançá-la é impossível. É preciso escrever,
escrever sempre para praticar e aprimorar o estilo. Dessa forma, é possível se
habituar ao processo e reduzir as preocupações com relação ao que é produzido.
- REFERÊNCIAS
SCARPA, Daniela
Lopes. O papel da argumentação no ensino de Ciências: lições de um workshop. Ens. Pesqui. Educ. Ciênc. (Belo Horizonte)
[online]. 2015, vol.17, n.spe, pp.15-30. ISSN 1983-2117.
BECKER,
Howard S. Writing for social scientists:
How to start and finish your thesis, book, or article. University of
Chicago Press, 2008.
LAZZARIN,
Luís Fernando. Introdução à escrita
acadêmica. Santa Maria, RS: UFSM, NTE, UAB, 2016.
Os autores encontraram uma combinação informal para tratar de diversos aspectos relacionados com a lógica e com a argumentação, apresentando exemplos retirado da mídia factual. Leitura fácil para a apresentação de diversos conceitos.
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