PESQUISA, SOCIEDADE E HUMANIDADE: contribuições existenciais
Autores: Ana Cláudia Vitório de Carvalho Góes; Everton Nazareth Rossete Junior; e José Adailton Vieira Aragão Mello (GRUPO 01)
É notório que o
ser humano tem/sente necessidade de conhecer, desvendar as coisas que o cercam,
talvez seja uma necessidade humana. Desde a Grécia os indivíduos buscam
respostas sobre origem do homem e o mundo, muitas vezes tais respostas estavam
envolta das mitologias e fábulas, porém, tem-se questionamentos racionais e
como tal busca-se respostas com embasamentos reais e passíveis de comprovação
(FEYERABEND, 1985).
Destaca-se no
século 19/20 a justificativa é que a ciência, sobretudo, as ciências naturais
teriam como guiar a humanidade a partir do empirismo científico e o positivismo
(COMTE 1990), principalmente no campo da medicina, no qual a sociedade acaba
legitimando o discurso médico em detrimento às outras áreas de conhecimento,
através do discurso natural e patológico (CANGUILHEM, 2009); (FOUCAULT, 2001).
Outro ponto relevante é sobre o discurso que a ciência produz e que atuam sobre
os indivíduos, como menciona Foucault (2010, p. 30): “não há relação sem
constituição correlata de um campo de saber, nem saber que não suponha e não
constitua ao mesmo tempo relações de poder”.
A partir das
discussões acima, percebe-se que as pesquisas científicas geram conhecimento,
saber e quando são apreendidos geram discursos de poder que estão
intrinsecamente presentes na sociedade, do campo da comunicação às
educacionais. As pesquisas científicas a partir do século XXl tiveram algumas
mudanças significativas, refutando as visões biologizantes da sociedade e dos
indivíduos e lançando olhar sobre o desenvolvimento do capitalismo e seus
impactos sociais, econômicos, culturais e políticos.
Nos contextos
atuais da sociedade, também chamada de sociedade do conhecimento, o componente
diferenciador nas cadeias de produção passa a ser o próprio conhecimento, de
modo que, como afirmam Calle e Silva (2008), as matérias primas passam então a
ter papel secundário nestas atividades. Segundo Fuks (2003), entende-se por
sociedade do conhecimento, as sociedades cujo motor estratégico de riqueza e de
poder principal encontra-se no conhecimento, servindo o conceito tanto para
empresas como para nações.
Pesquisas
científicas, neste e em outros contextos, ao buscar alcançar qualidade e
relevância, contribuem para o desenvolvimento, em diversos aspectos, da
sociedade. Ao longo do curso da história, tem-se inúmeros exemplos de
descobertas científicas que impactaram significativamente a humanidade. Desde
pesquisas na área da saúde, como a descoberta da penicilina, por Alexander
Fleming em 1928, que foi um dos episódios mais impactantes história da ciência,
da medicina e da farmácia do século XX (PEREIRA; PITA, 2005), como pesquisas
nas áreas das humanidades, que podem permitir, tendo apenas um pequeno recorte
como exemplo, a leitura e percepção dos fatores que condicionaram e influenciaram
determinadas ações e reações de períodos históricos marcantes, possibilitando
montar um panorama que permita a não repetição de períodos catastróficos.
Neste aspecto, as
pesquisas desenvolvidas nas universidades cumprem duas funções: desenvolver
pesquisas de fato e com isso chegar a descobertas e conclusões que podem
contribuir para melhoria da sociedade numa gama quase infinita de aspectos; e
seja com programas de Iniciação Científica na graduação, ou no desenvolvimento
de pesquisas de mestrado e doutorado em programas de pós-graduação, formar
novos pesquisadores, de modo a dar continuidade à produção de contribuições,
gerais ou específicas, atendendo às demandas da sociedade.
Como exemplo,
tendo pesquisas que conectam interferências globais em elementos locais, é
possível pesquisas como as referências internacionais influenciaram a paisagem
arquitetônica do centro histórico da capital do estado do Mato Grosso, Cuiabá.
Um estudo da história da arquitetura local que apresenta de que forma as
migrações contribuíram para a disseminação de estilos arquitetônicos
históricos, através dos imigrantes e através de viagens temporárias realizadas
pelos nativos. Consegue-se, assim demonstrar a importância e influência das
trocas culturais e suas relações com a conformação das paisagens
arquitetônicas. Não apenas tratando de estilos e elementos construtivos da
arquitetura em si, o problema relaciona-se também com estudos sobre a
construção de identidades locais.
Tratando-se das
relações, diretas ou indiretas, de diversas áreas do conhecimento e seus
atravessamentos na sociedade, um exemplo reside em pesquisas sobre as
influências dos meios de comunicação de massa em outras áreas da sociedade,
principalmente da televisão que, dentro do rol de tecnologias contemporâneas, é
o meio das massas e é “possivelmente o meio que melhor exemplifica o surgimento
de uma indústria cultural no Brasil” (HAMBURGUER, 2005, p. 31). Os campos que
permitem pesquisas relacionando arquitetura e o produto novelístico, de modo
geral, apresentam-se como um território fértil a ser explorado e que traz
possibilidades de novas descobertas e aprofundamentos. Entre estas
possibilidades está, inclusive, a de entendimento de como as representações
arquitetônicas, através dos cenários dos ambientes construídos para as tramas,
relacionam-se com a reprodução e influência na criação de um imaginário acerca
do consumo da arquitetura enquanto produto popular. Nesta experimentação
interdisciplinar, a representação arquitetônica se torna um instrumento para a
análise das reproduções e construções de um imaginário popular quanto ao
consumo da arquitetura enquanto produto. A importância de se examinar o papel
das novelas como ferramenta de fabricação de realidades apresenta a relevância
do desenvolvimento de tal pesquisa, e o presente estudo pode contribuir ao
ajudar a entender melhor transformações culturais e espaciais, indicando novas
possibilidades para o desenvolvimento destes veículos, e inclusive gerando
direcionamentos para pesquisas e intervenções futuras.
Outro exemplo é
sobre a carência de pesquisas científicas sobre as pessoas albinas, sobretudo,
no Brasil. Essa população faz parte dos grupos minoritários, porém, não existem
dados estatísticos oficiais, dificultando o desenvolvimento de políticas
públicas, divulgação de informações sobre o albinismo, suas causas e
consequências. Com as pesquisas científicas será possível colocar a condição
das pessoas albinas em debate, na tentativa de diminuir os estigmas e
preconceitos a que estão sujeitas. A ciência tem uma visão sobre as pessoas
albinas e que são muitas vezes contrárias ao que o grupo pensa sobre ser
albino. A medicina entende que são pessoas doentes, portadores de uma
enfermidade sem cura, porém, as pessoas albinas não entendem dessa forma, pois
acreditam que “ninguém morre de albinismo” (MELO, 2017). Ao colocar o albinismo
em foco, a sociedade para a ter mais informações sobre essas pessoas, o que
pode dar mais visibilidade ao grupo.
Assim, seja pelo
surgimento de demandas específicas que exigem a investigação, seja pelo impulso
da descoberta de pesquisas de base, é a partir de experimentações, formalizadas
em pesquisas científicas ou em caráter empírico experimental, é que se dão as
descobertas capazes de gerar mudanças significativas para a sociedade, tanto
local como globalmente.
REFERÊNCIAS
CANGUILHEM, Georges. O normal e o patológico. Tradução de MARIA THEREZA REDIG DE
CARVALHO
BARROCAS. 6ª Ed. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 2009.
COMTE, A. Discurso
sobre o espírito positivo.São Paulo: M. Fontes, 1990.
FEYERABEND, Paul. Contra
o Método. Rio de Janeiro: Grasl, 1985.
DAVILA CALLE,
Guillermo Antonio; SILVA, Edna Lúcia da. Inovação no contexto da sociedade do
conhecimento. In: TEXTOS DE LA CIBERSOCIEDAD, v. 8, p. 1, 2008.
FUKS, Saul. A
Sociedade do Conhecimento. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, n.152, p.75- 101,
jan./mar. 2003.
FOUCAULT, M. Vigiar
e Punir: nascimento da prisão. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.
FOUCAULT, Michel. Os
Anormais: Curso no Collège de France. Tradução: Eduardo Brandão. São Paulo:
Martins Fontes, 2001.
HAMBURGER, Esther.
O Brasil antenado: A sociedade da novela. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,
2005.
MELO, J. A. “Guerreiros
do sol e da lua”: um estudo sobre os albinos. Republic of Moldova: Novas
Edições Acadêmicas, 2017.
PEREIRA, Ana
Leonor; PITA, João Rui. Alexander Fleming (1881-1955) da descoberta da
penicilina (1928) ao Prémio Nobel (1945). In: Revista da Facudade de Letras
História, Porto, III Série, vol.6, 2005, p.129-151.
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