REFLEXÕES SOBRE AS PRÁTICAS SOCIAIS EM REGIÃO PERIFÉRICA DE CUIABÁ-MT
REFLEXÕES SOBRE AS PRÁTICAS SOCIAIS EM REGIÃO
PERIFÉRICA DE CUIABÁ-MT
Jill Margarete Rodrigues F. de S.
Santos
Valéria Pereira Moreira
No final do século XIX as
pessoas estavam inseridas em um ambiente com alta gama de sons e ruídos, fruto
da revolução industrial e de outros acontecimentos em torno das cidades,
proporcionando que a música de concerto[1]
sofresse alteração em sua estrutura em busca de novas cores sonoras pois, após
o Romantismo, o século XX surgiu como a Era do Experimentalismo, e trouxe para a
música de concerto mudanças em relação a timbres. Houve aplicação de novas
técnicas de composição e de instrumentos com sons inovadores e tecnológicos.
Além disto, com o advento das novas mídias, acessar músicas de locais distantes
ficou bem mais fácil e corriqueiro. De acordo com Santos Filho:
As tentativas de classificar a música do século XX
por estilos, como ocorria nos séculos anteriores, mostraram- se ineficientes,
principalmente a partir da segunda metade do século – período em que se
verifica praticamente uma revolução nos meios de comunicação. O acesso à
informação, entre outros fatores, favoreceu a diversidade de produções que se
torna uma das características da música deste período... (SANTOS FILHO, 2013,
p. 41)
A música de concerto do século XX traz uma mistura
complexa de muitas tendências. O repertório contemporâneo valoriza
especialmente a inovação e a criatividade. Por que mesmo assim as bandas de
percussão de Mato Grosso insistem em tocar sempre o mesmo tipo de repertório?
Esta inquietação instigou a dar início a uma pesquisa mais científica, que tem
como objetivo principal a análise do impacto
deste repertório contemporâneo de música de concerto[2] nos demais grupos da
região através da atuação da Banda de percussão Rafael Rueda, já que
pretende-se que esta banda possa aprender e executar este tipo de repertório em
2021.
A escola em questão está localizada no bairro Pedra 90, que é
considerado um bairro muito populoso, sobressaindo-se a população de jovens. Neste
sentido, a banda de percussão Rafael Rueda tem um papel importante nesta
comunidade como projeto, que não só trabalha com a música, mas também dança e
ginástica, sendo veículo de transformação social para seus integrantes.
Posteriormente a banda fará a execução deste repertório em
recital para demais grupos e à comunidade com o intuito de despertar, fomentar senso crítico e o
interesse em diferentes estilos musicais para os grupos de bandas de Mato
Grosso.
Uma das
características principais da Banda é o processo de transformação social,
cultural e humanista, que ocorre entre seus integrantes através da prática musical,
ou seja, oportuniza o aprendizado musical e o desenvolvimento de outras
inteligências, como a interpessoal e a intrapessoal (GARDNER, 1995). A Banda de
Percussão Rafael Rueda é um referencial de projeto cultural e social, oferecendo
aulas gratuitas de música e dança, sendo uma das poucas atividades voltadas
para música, que oportuniza uma vivência artística na comunidade do bairro Pedra
90.
Neste
sentido, o papel da Banda de Percussão Rafael Rueda para a comunidade converge,
com o que Canclini (2000) pontua: “Chamamos de projeto ‘democratizador’ o
movimento da modernidade que confia na educação e na difusão da arte e dos
saberes especializados para chegar a uma evolução racional e moral” Para o
autor, a democratização ocorre,
quando a cultura se torna independente da razão e pauta-se nas esferas
autônomas: nas ciências, na moralidade e na arte. Em que cada uma se organiza
de forma específica – “o conhecimento, justifica o gosto e regido por
instâncias próprias de valor, ou seja, a verdade, a retidão normativa, a
autenticidade e a beleza”. A autonomia gera profissionais especializados que se
tornam autoridades de sua área. Essa especialização acentua a distância entre a
cultura profissional e a do público, entre os campos científicos ou artísticos
e a vida cotidiana. (CANCLINI, 2000, p.33).
Conforme Soares (2006), a
música é essencial para a formação e realização do indivíduo como ser
responsável de suas próprias ações, promovendo o equilíbrio entre o objetivo e
o subjetivo. Com base nas funções expressas por Merriam (1964) podemos perceber
que a música é inerente ao meio cultural e social e ainda se encontra presente
na vida do homem nos âmbitos coletivo e individual e agindo ou sendo resultado
de transformações que fazem parte do cotidiano da sociedade.
As
mídias digitais exercem grande influência na vida dos jovens, tal fato reflete
no repertório das bandas também, algo que pode ser visto também no gosto do público,
que aprecia as apresentações. Desta maneira, a manifestação musical
oriunda das bandas de música, por meio do repertório, pode ter diversas funções
apresentadas à sociedade com base na expressão sonora resultante do fenômeno
musical nas bandas.
Com base na subjetividade
capitalística e a influência do consumo causado pelos meios de comunicação de
massa, Deleuze e Guattari afirmam, que a função das máquinas sociais é
codificar os fluxos do desejo segundo um “sistema global do desejo e do destino
que organiza as produções de produção, as produções de registro, as produções
de consumo” (DELEUZE e GUATTARI, 2010, p. 188), fazendo-os operar conforme o
uso ilegítimo das sínteses do inconsciente. Este uso ilegítimo implica sempre
na produção de representações, ou codificações, que reprimem a atividade
plurívoca e nômade das máquinas desejantes.
Com base nas discussões
apresentadas, podemos refletir sobre, como o repertório das bandas é
influenciado tanto pela mídia como pelo repertório tradicional de bandas e
fanfarras, deixando pouca porosidade para receber outras contribuições advindas
do repertório contemporâneo de música de concerto.
Em
virtude dessa resistência ao novo, faz-se necessário a qualificação dos
profissionais da música, para que os alunos adquiram novos conhecimentos,
ampliando o leque de atuação dos instrumentistas na elaboração do repertório
inovador, contemporâneo, apresentando os “novos fazeres” os “novos saberes” do
universo musical, estabelecendo um elo de ligação da banda com o público, que
juntos descobrem novos caminhos proporcionados pelos estudos inovadores, que a
qualificação profissional permite, e estimulando aos jovens a busca pelos
conhecimentos e pesquisa que a escola proporciona à população.
Para
concluir, o encantamento que a música oferece ao público e aos instrumentistas,
estabelece uma comunicação imediata, entre a banda e o público, que fortalece
os laços de amizade e o trabalho da cidadania, criando uma nova cultura para a
população, que vê nos jovens a possibilidade de vencer as barreiras
estabelecidas pelas políticas maquínicas, a serviço do capital, sem olhar para
o social, cujas políticas públicas não existem para uma grande parte da
população brasileira, que independe da região do país.
A Banda de Percussão Rafael Rueda
desenvolve um trabalho social, que possibilita a descoberta de um mundo
possível, para os jovens do bairro Pedra 90, distante do grande centro da
cidade de Cuiabá, que precisa, urgentemente, estabelecer políticas públicas que
atendam às necessidades dos jovens, para que eles possam encontrar outros
caminhos profissionais e culturais, que os conduzam para a realização de sonhos
profissionais, sem perder o encantamento pela vida, uma vez que, os estudos
abrem portas, integram gerações e nações em busca de um mundo social, justo e
democrático.
REFERÊNCIAS:
CANCLINI,
Nestor García. Culturas Híbridas:
estratégias para entrar e sair da modernidade. Tradução de Ana
Regina Lessa e Heloísa Pezza Cintrão. 3ª.ed. São Paulo: Edusp, 2000.
DELEUZE, G.; GUATTARI, F., O anti-Édipo: Capitalismo e Esquizofrenia 1. São Paulo: Ed. 34,
2010.
GARDNER, H. Inteligências Múltiplas: a teoria na prática. Trad. Maria Adriana Veríssimo Veronese. Porto
Alegre: Artes Médicas, 1995.
MERRIAM, A. O. The anthropology of music. Evanston: Northwestern University Press, 1964.
SANTOS
FILHO, Francisco Lopes dos. Planalto Central: ... Cuiabá: Carlini &
Caniato Editorial, 2013.
SOARES, Gina Denise Barreto. Coro Infantil: uma proposta ecológica. Gina Denise Barreto Soares.
– Serra: Companhia Siderúrgica de Tubarão, 2006.
[1] O
termo “música de concerto” pois o seu equivalente, “música erudita”, termo
anterior cunhado por Mário de Andrade, pode acarretar erroneamente em
hierarquização ou elitismo.
[2] A
terminologia “repertório contemporâneo de música de concerto” para situar
aquele oriundo de composições alinhadas com a música de Vanguarda do século XX
e seus desdobramentos posteriores.
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