VALIDAÇÃO CIENTÍFICA: PRODUÇÃO, REFERÊNCIAS E MÉTODOS
Autores: Ana Cláudia Vitório de Carvalho Góes; e Everton Nazareth Rossete Junior. (GRUPO 01)
Um artigo científico se propõe a investigar determinada hipótese com base em argumentos e dados que validem tal hipótese. No entanto é comum que as comprovações sejam diretamente influenciadas pelo ponto de vista do pesquisador, de forma que este prioriza e até mesmo interpreta os dados localizados de forma que estes sejam favoráveis à sua tese, implicando em pesquisas com dados que não condizem com a realidade. Para controle da disseminação deste tipo errôneo de informação, as revistas científicas têm, em seu corpo editorial, pessoas que se dedicam a revisar os textos a serem publicados, contribuindo para que as informações a serem veiculadas nos artigos técnicos científicos estejam dentro dos critérios estabelecidos como padrão de qualidade para as publicações. Tais critérios devem ser elaborados com base em métodos científicos e têm como objetivo validar a pesquisa científica, garantindo que os dados contidos ali, contribuam de fato com a universalização do conhecimento.
Levantamentos criteriosos das referências adotadas para fundamentar o processo de pesquisa são necessários na produção científica. Inclusive para que não ocorram episódios como o relatado pela professora Anne-Will Harzing e o professor Pieter Krronenberg (2017) no artigo The mystery of the phantom reference (O mistério da referência fantasma). Os pesquisadores perceberam em um artigo uma referência que aparentemente simplesmente não existia, embora tenha sido citada em aproximadamente 400 artigos, segundo o Web of Science. A referência, de fato, parecia ser completamente inventada, como uma “referência fantasma” criada pelo autor, meramente para ilustrar um formato de referência – eis o porquê se tratar de publicação em um jornal existente, com um segundo autor que não possuía nenhuma outra publicação além da tal referência. Sem jamais defender a publicação de resultados não válidos como produtos de pesquisas científicas, ou a utilização de referências que não foram devidamente verificadas, faz-se importante refletir sobre algumas lógicas acadêmicas, principalmente a chamada publish or perish (publique ou pereça). Como traz Rafael Alcadipani (2017),
No mundo anglo-saxão, a produção científica e, consequentemente, os periódicos acadêmicos estão imersos na lógica do publish or perish (anglo-saxão), que está relacionado com o pragmatismo para escrever e publicar (WILSON, 1942). Tal lógica se consubstancia em uma pressão presente no meio acadêmico para que seus membros realizem publicações de maneira rápida e contínua, geralmente em periódicos, para que os acadêmicos consigam uma posição em uma instituição de pesquisa e mantenham a sua carreira (ALCADIPANI, 2017, p. 406)
Já em arquitetura e urbanismo, percebe-se que a maior dificuldade relacionada à validação da pesquisa científica vem da falta de critérios para a avaliação da mesma. Em seu artigo científico, Segawa, Crema e Gava (2003) falam da dificuldade de estabelecer estes critérios de avaliação e portanto de validação da pesquisa científica no campo da arquitetura, urbanismo, paisagismo e design, dado ao caráter multifacetado da disciplina. A dificuldade de avaliação do conteúdo automaticamente proporciona que os conteúdos sejam muitas vezes contraditórios e sem grande valor científico, uma vez que encontram-se repletos de valores e pontos de vista pessoais que muitas vezes não podem ser comprovados cientificamente. Segawa, Crema e Gava (2003) também atribuem essa dificuldade de categorizar as publicações às mudanças que vêm ocorrendo no setor, onde este deixou de ser prioritariamente crítico para ser mais lucrativo, seguindo assim uma linha mais voltada à tendências e modismos do que propriamente à produção intelectual e crítica. Os autores também ressaltam a importância de se estabelecer critérios qualitativos para as publicações e que todos os envolvidos se preocupem com a questão de estabelecer um “sistema confiável de referência comum”, dessa forma busca-se alcançar maior relevância da produção intelectual.
A pesquisa científica deve ser pautada em métodos que permitam e replicabilidade de seus resultados, quanto repetida sob as mesmas condições, sejam estas quantitativas, qualitativas ou quali-quantitativas. Quanto mais claros os critérios para as descobertas, resultados ou percepções e reflexões sobre determinado tema, dentro das diversas áreas do conhecimento, mais credibilidade pode-se atribuir ao material publicado. Repensar a dinâmica acadêmica quanto à relação entre quantidade e qualidade de produção científica também pode ser um campo, ainda que espinhoso, a se explorar.
Referências
ALCADIPANI, Rafael. Periódicos brasileiros em inglês: a mímica do publish or perish. In: RAE-Revista de Administracao de Empresas, v. 57, p. 405-411, 2017.
FERREIRA, A. S.; ABREU, M. L. T. D. Desconstruindo um artigo científico. Revistra Brasileira de Zootecnia, Viçosa, Julho 2007. ISSN ISSN 1806-9290. Disponivel em: <https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-35982007001000034>. Acesso em: 24 Out. 2020.
HARZING, Anne-Wil; KROONENBERG, Pieter. The mistery of the phantom reference. In: Warzing.com Publicado em 26 de outubro de 2017, atualizado em 3 de outubro de 2020. Disponível em: <https://harzing.com/publications/white-papers/the-mystery-of-the-phantom-reference> Acessado em 24 out. 2020.
SEGAWA, H.; CREMA, A.; GAVA, M. Revistas de arquitetura, urbanismo, paisagismo e design: a divergência de perspectivas. Ciência da Informação, Brasília, Dezembro 2003. ISSN ISSN 1518-8353. Disponivel em: <https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-19652003000300014>. Acesso em: 24 Out. 2020.
Chama a atenção o artigo para o destino das pesquisas científicas, que é a universalização dos conhecimentos
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